Newton Faller

Contemporâneo de Faller no NCE e nos estudos em Berkeley, Jayme Szwarcfiter, professor e analista de sistemas do Núcleo, relembra a convivência com o pesquisador: “Enquanto fazia o doutorado, convivi com ele na mesma Universidade. Ele era muito calmo e defendia as pessoas com as quais trabalhava. Enfim, apesar de todos os êxitos em sua vida, ele não tinha vaidades. Na época, era funcionário da IBM num tempo que isso se comparava a trabalhar no Banco Central. Faller veio trabalhar num esquema que não tinha estabilidade nem perspectiva e o motivo pelo qual ele veio para a Universidade era seu ideal de desenvolver um produto nacional num momento em que não existia absolutamente nada”.

A tese de mestrado concluída em 1973, “O algoritmo de Huffman Interativo”, rendeu-lhe reconhecimento mundial ao ter seu nome incluído ao de Gallager e Knuft no método FGK. O estudo é um procedimento de compactação de dados através de um algoritmo que acelerava as contas aritméticas do computador e que é utilizado até hoje.

Sua ida a Berkeley para o doutorado em Ciência da Computação pela Universidade da Califórnia o fez mudar o rumo.

Após voltar ao Brasil, desde o ano de 1982, Newton Faller debruçou-se na elaboração do Pegasus, um sistema multiprocessador homogêneo que alcançava a performance de superminis através da replicação de módulos básicos.

O Pegasus foi o embrião da tecnologia dos supermicros. Os então chamados supermicros eram máquinas de 32 bits, com número de registradores (memória interna do microprocessador) com capacidade de endereçar pelo menos 16Mb de memória, que possuíam em seu hardware proteção para os programas.

O que hoje nos parece uma atividade quase que intrínseca do computador, à época, era uma inovação absoluta. Apenas um super micro tinha a capacidade de ser multiusuário e multitarefa, ou seja diversas pessoas poderiam utilizá-lo simultaneamente em diversas tarefas. Tal característica exigia um sistema operacional que os possibilitasse ser multiusuário e multitarefa para que tivessem aplicações científicas e comerciais. Estes equipamentos foram a primeira geração de computadores a utilizar o sistema operacional Plurix, desenvolvido na ocasião pela equipe de Faller.

O sistema operacional Plurix foi largamente apontado como uma das alternativas nacionais para substituir a importação do sistema padrão americano Unix, de propriedade da American Telegraph, AT&T. Comercializado através da EBC e da Sisco em 1988, após seis anos de pesquisa, o Plurix teve toda a sua primeira versão financiada pelo Fundo de Incentivo à Pesquisa do Banco do Brasil (FIPEC), mas os custos da segunda e terceira versões foram assumidos pelo próprio NCE. O professor acreditava na elaboração de um software no Brasil, mesmo com uma lei que facilitava a importação de programas estrangeiros. Em artigo escrito para a seção Opinião da Revista INFO à época da comercialização do software, Faller enfatizava em tom quase ufanista.

“Como país do terceiro mundo, o Brasil foi impedido de ter acesso à tecnologia do UNIX. A discordância do papel subalterno que lhe é reservado pelo Primeiro Mundo reuniu equipes de pessoal altamente qualificado para empreender o desenvolvimento de sistemas operacionais compatíveis com o Unix. Hoje (1988), tais sistemas são uma realidade. Estas equipes poderão produzir com facilidade os novos sistemas operacionais necessários para a evolução da indústria nacional. Apesar de toda a dificuldade, chegamos a uma invejável plataforma tecnológica em informática. Disso dependerá o papel que o país deverá desempenhar no cenário internacional do próximo século”.

Tropix: A nova geração do Plurix

A continuação do trabalho de Faller, após sua morte em 1996, deu-se com os pesquisadores Pedro Salenbauch e Oswaldo Vernet, que trabalharam junto com o professor.

Pedro Salenbauch relembra a grande capacidade de Faller de apreender novos conhecimentos: “Quando não sabia algum detalhe de qualquer assunto que fosse, Faller pesquisava arduamente até se mostrar um expert no assunto. E isso acontecia em muito pouco tempo. Era um grande estudioso” - recorda.

O sistema multiusuário e multitarefa concebido durante os anos de 1982 a 1986 (então intitulado Plurix) foi transportado em 1987 para o computador Icarus. Em 1994, teve início o transporte para a linha INTEL de processadores (386, 486, Pentium) e dois anos mais tarde, o Tropix pode ser utilizado em diversos computadores. O Tropix tem como utilidades o estudo e utilização de um sistema operacional de filosofia Unix, o desenvolvimento de software e a implementação de servidores para a internet. Com distribuição gratuita, o sistema cuja nova versão 4.8 está sendo trabalhada, pode ser instalado através de disquetes ou CD em computadores com processador Intel 486/Pentium ou equivalente. O sistema está disponível no endereço eletrônico www.tropix.nce.ufrj.br

Currículo

Engenheiro Eletrônico, formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA, de São José dos Campos – SP.

Doutor (PhD) em Ciência da Computação pela Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Professor e Analista de Sistemas da UFRJ.

Trabalhou na IBM e no International Computer Science Institute – ICSI, na Califórnia, Estados Unidos.

Foi laureado como o 1º Prêmio de Pesquisa na 5ª Feira Internacional de Informática realizada em 1985.

Extraído da: NCEinfocomp. Publicação do Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ, ed. quadrimestral, v. 1, n.2, agosto/2005.