Tércio Pacitti

“Quando saí de casa, em Lins, no interior paulista, e fui estudar em Piracicaba, longe de minha família, com quatorze anos de idade, meu pai me deu uma Bíblia. Na parte de dentro da capa posterior ele grudou uma página datilografada por ele mesmo, contendo 23 conselhos comportamentais apropriados às “tentações” da juventude da época. Chamo-os de “mandamentos” de meu pai, pautados em uma escala de valores que ele achava certa. Ele conhecia minhas tendências e travessuras.”

A Bíblia com os 23 mandamentos remonta as primeiras recordações de Tércio Pacitti sobre sua infância e a dedicação dos pais a sua formação intelectual. Aos quatorze anos de idade, quando saía de casa para estudar numa cidade distante, Tércio optava por um caminho que o levaria a ser um dos principais nomes da consolidação da informática no Brasil nas décadas de 60 e 70. O então menino, preocupado em ser obediente e estudioso, somente se ocupava da família nas visitas de fim de ano, quando estava de férias da escola. Nesse tempo, convivendo com as dificuldades dos estudos e com os obstáculos da vida, ele procurava consolo com o Tio Saturnino, amigo de confidências durante os passeios em Bragança Paulista, que segundo o próprio Brigadeiro Pacitti “o ajudou a vencer as angústias e frustrações geradas por expectativas emocionais não atingidas”.

Embora encontrasse dificuldades em manter seus estudos, Pacitti, estudante do curso de engenharia civil do Mackenzie, ao saber da criação do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, decide se inscrever no vestibular do ITA, oportunidade que lhe custaria o abandono do estágio na disciplina de Topografia e o curso de instrução do centro de preparação de oficiais da reserva. Bem sucedido em sua escolha, sendo aprovado no vestibular e no exame médico, mesmo míope, Pacitti ingressa no curso de engenharia aeronáutica, especialidade em aerovias, concluído em 1952.

A Vocação para Eletrônica

Devido a descontinuidade do curso de engenharia aeronáutica, realizado em parte no IME, no ITA e com o aproveitamento dos créditos do curso iniciado no Mackenzie, Pacitti foi cursar no Centro Aeronáutico de Oklahoma uma especialização avançada da eletrônica na época, onde teve que aprender a manejar equipamentos, sem ainda ter conhecimento das disciplinas básicas da eletrônica. O convite para lecionar no ITA na turma do último ano do curso de Engenharia Eletrônica veio em 1954, e sentindo-se inseguro com o tema por somente conhecer a aplicação operacional e não as teorias básicas de eletrônica, Pacitti concordou em ensinar a parte aplicativa do curso sob a condição de frequentar as disciplinas para se tornar engenheiro eletrônico, objetivo concretizado em 1959.

A facilidade para operar sistemas e os conhecimentos em Fortran, fizeram de Pacitti um pioneiro no Brasil a escrever sobre o tema e se tornar referência no assunto. Sigla do Formula Translator, Fortran foi a primeira linguagem de programação chamada de alto nível, elaborada no IBM 701 que abriu oportunidade para os usuários oriundos das ciências exatas. Esse tipo de linguagem causou uma revolução para as duas décadas de usuários de informática. O próprio Pacitti relembra o fato: “O Fortran-Monitor começou a vender bastante porque o IBM 1130 penetrava nas universidades. Esta dobradinha criou um mercado ainda inexistente. O IBM 1130 era mais barato e bem mais avançado do que o 1620. Todos os periféricos eram on-line e ele possuía um pequeno sistema operacional, praticamente inexistente nas máquinas de pequeno porte da época, e disco removível residente. Já existiam diversos livros de Fortran publicados em inglês, de modo convencional. Escrevi o meu de uma maneira não convencional, como aprendi a linguagem; mexendo nos manuais das máquinas, fazendo pequenos programas e experimentando-os. Nunca fiz um curso formal sobre Fortran.”

A Entrada no Mundo Civil: o NCE

O primeiro contato entre Pacitti e a UFRJ, se deu em 1976 por intermédio do professor Coimbra, da pós-graduação de engenharia, que seria mais tarde a COPPE. A ideia era que os alunos de mestrado da UFRJ pudessem dar prosseguimento a suas dissertações no ITA. Como define o Brigadeiro: “Os alunos iam do Rio para São José dos Campos porque não havia um computador científico na cidade. A facilidade proporcionada pelo Fortran do 1620 os atraía, porque na capital carioca não existia nenhuma máquina instalada que aceitasse plenamente essa linguagem”.

O convite para trabalhar na Universidade veio logo em seguida por telefone, numa conversa que a época, o capitão Pacitti se recorda: “O Coimbra me ligou dizendo: você não quer vir aqui instalar essa máquina? (Era um IBM 1130, um dos primeiros no Brasil.) Eu ponderei muito, falei com o ministro da aeronáutica e senti afinal que eu poderia ter mais futuro técnico com aquela máquina do que o ITA iria me proporcionar. Seria então criado o novo Departamento de Cálculo Científico (DCC), onde este computador iria funcionar”.

O DCC foi o embrião do Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ. A presença deste novo e potente computador na Universidade despertou a atenção de outros setores governamentais sediados no Rio de Janeiro, o que se tornou um boom computacional universitário em todo o Brasil.

O Núcleo se encontrava estruturado para as finalidades administrativas da UFRJ: os primeiros sistemas administrativos desenvolvidos foram para a Divisão de Registro de Estudantes (DRE) para o pagamento (PAPE) de toda a universidade e o Sistema de Automação de Bibliotecas. As orientações das pesquisas realizadas no Núcleo seguiam a filosofia de se destinar a uma complexidade crescente, de modo que os resultados obtidos pudessem produzir conhecimento e consequentemente impulsionar a indústria nacional.

Segundo Pacitti, a estratégia foi satisfatória naquele período: “Conseguimos incentivar algumas indústrias na década de 70. A MICROLAB industrializou o Processador de Ponto Flutuante, que envenenava uma máquina mais antiga, tornando-a dez vezes mais rápida. E todos na Universidade compraram esse produto. Estavam envolvidos nesse projeto o Newton Faller e Pedro Salenbauch. A partir dessa arrancada, vi que gente boa traz gente boa”.

EMBRAER, Semente da EMBRACOMP

Dentro das iniciativas no Núcleo, uma visita a Embraer em São José dos Campos, composta por Pacitti e mais seis estudantes do NCE, foi a semente para a formação da Embracomp. Como relembra o Brigadeiro: “A Embraer estava de vento em popa. Projetava, fabricava, montava o que podia com componentes nacionais e exportava. O jovem pessoal do NCE ficou impressionado com o que viu”.

E a impressão foi tão boa, que após uma semana os técnicos do NCE procuraram Tércio Pacitti para criar uma empresa e industrializar os protótipos desenvolvidos por eles. Com setenta acionistas, entre eles programadores, analistas e funcionários, a empresa tinha como capital inicial cerca de 28 mil reais, provenientes das prestações mensais de 33 reais de cada sócio que integraria o total em um ano.

A empresa intitulada Embracomp, nasce dessa empreitada e se estabelece numa pequena casa do bairro de Bonsucesso, com o aluguel avalizado pelo próprio Pacitti. Da época, o Brigadeiro guarda um segredo: “Eu mesmo adquiri algumas ações para prestigiá-los, em nome de um dos participantes. Fiquei incógnito para que pessoas com visão curta e estreita não me imputasse segundas intenções não compatíveis com o meu cargo. Desejava apenas demonstrar que acreditava em suas intenções”.

E tinha razão em acreditar. A empresa durou 17 anos no mercado (mudou de nome mais tarde por causas técnicas) e produziu terminais de vídeo, concentradores de comunicação, microcomputadores (dos quais dois acomodaram o Plurix), além de seu primeiro produto, um terminal de vídeo universal, batizado de TB-110, no qual o número fora extraído do avião Bandeirante EMB-110, o mesmo utilizado como transporte para a visita à Embraer.

Da história, Pacitti tira bons resultados, embora não se esqueça da crítica: “o esforço do empreendimento e a garra por trás de cada jovem merecem uma citação em destaque. Entretanto, posteriormente esses jovens aprenderam que as decisões empresariais se fazem em uma estrutura piramidal. Na Embracomp a pirâmide estava invertida. Mas a experiência foi válida para abrir caminho para pequenas empresas que mais tarde emergiram do NCE.”

A Despedida

A despedida do Núcleo foi se concretizando aos poucos. O rodízio que ocorria na direção de dois em dois anos, empossou como diretor Jayme Szwarcfiter, Pacitti ainda ficou um ano como diretor adjunto.

“Comecei a ficar desgastado e senti que estava no momento de passar a direção do NCE a outro companheiro. Tive que fazer uma escolha, pois há muito não estava fazendo nada na área militar, de modo que eu não seria promovido nem a coronel nem a brigadeiro. Para me dedicar a Aeronáutica saí e deixei o Núcleo em boas mãos” - comenta Pacitti.

Após a experiência no Núcleo, Tércio Pacitti foi condecorado Brigadeiro, assumiu a função de reitor do ITA e da UNIRIO. Atualmente é consultor da empresa Consist.

Paradigmas do Software Aberto

O tema para seu mais recente livro, Pacitti tirou de uma situação complicada. Estava num congresso sobre tecnologia quando foi perguntada sua opinião sobre software livre. Pouco sabia a respeito de código aberto e de ambientes livres, mas se saiu bem respondendo que a nova modalidade dos softwares necessitava de incentivo e mais intercomunicação entre as tecnologias. Bem ao estilo dos indivíduos que fazem de um limão uma limonada, Pacitti aproveitou a situação para estudar a situação do software de código aberto. Dedicação que resultou no livro “Os paradigmas do software aberto” a ser lançado em janeiro de 2006 pela LTC editora. O livro é composto de uma visão pessoal sobre um tema em voga, Software Aberto e, em decorrência, Software Livre, que possui implicações tanto de caráter técnico e científico quanto social político.

Livros Publicados

Fortran – Princípios (1967)

Programação e Métodos Computacionais – vol. 1 (1975)

Programação e Métodos Computacionais – vol. 2 (1976)

Programação – Princípios (1987)

Do Fortran à Internet (2000)

Extraído da: NCEinfocomp. Publicação do Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ, ed. quadrimestral, v. 1, n.3, março/2006.