ANTONIO BORGES RECEBE MEDALHA PEDRO ERNESTO
Antônio Borges, pesquisador do NCE e referência nacional no desenvolvimento de tecnologias assistivas, foi condecorado com a Medalha Pedro Ernesto, a mais alta honraria concedida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, para homenagear pessoas e instituições que se destacam por relevantes serviços prestados à sociedade.
A homenagem foi proposta pela vereadora Luciana Novaes, reconhecendo a trajetória e o impacto da atuação de Antonio Borges, essencial para a inclusão digital e social de pessoas com deficiência. Entre suas contribuições mais significativas, destaca-se a criação do Sistema Dosvox, amplamente utilizado por pessoas cegas em todo o país, além de inúmeros projetos, softwares e metodologias que ampliaram o acesso à tecnologia, transformando o campo da computação assistiva no Brasil.
A diretora do NCE, Angélica Dias, fez o discurso dirigido ao homenageado, a seu convite. Além de ressaltar seu extenso currículo, prêmios e realizações profissionais, Angélica falou da grande figura humana, que conduziu seu trabalho científico levado pelo intuito de ajudar pessoas:
“(...) sua trajetória não é apenas uma sequência de códigos e pesquisas; é um mapa desenhado pelo coração. A verdadeira virada, o momento que define sua grandeza, não aconteceu em um laboratório frio, mas em uma sala de aula. (...) Não foi um algoritmo que o moveu a criar o DosVox; foi um olhar, a necessidade percebida, o desejo profundo de estender a mão a um ser humano. (...) O DosVox não é um software; é a voz que muitos não tinham, o passaporte para o mundo digital, o direito à informação, o fim do isolamento (...).
Antonio Borges conta que recebeu com surpresa e alegria a notícia vinda da assessoria da vereadora Luciana Novaes, “cuja vida foi realmente beneficiada pelo meu trabalho”.
Atingida por uma bala perdida em 2003, Luciana Novaes ficou tetraplégica e incapaz de falar. “A pedido de sua mãe, fui visitá-la e percebi que (...) ela conseguia emitir estalidos com a língua. Assim, desenvolvemos uma solução que permitia que, apenas com esse simples ruído, o computador pudesse ser totalmente controlado. (...) Luciana ficou muito grata na época pelo imenso ganho: alguém com uma limitação de comunicação quase total pôde voltar a se comunicar com síntese de voz, escrevendo e acessando a internet. O software, que na época foi denominado Luciana, foi posteriormente renomeado para MicroFênix, uma referência à ave mitológica, que renasceu das cinzas”, relembra Antonio.
Antonio Borges diz que a Medalha Pedro Ernesto representou para ele “uma prova inequívoca de que estava correto o caminho escolhido para tentar tornar a vida das pessoas com deficiência mais fácil. Mas ela também me fez repensar que não apenas eu compartilhava essas vitórias: para muitos, a vida só se tornou "possível" a partir das tecnologias criadas no NCE/UFRJ”.
O discurso completo homenageando Antonio Borges segue abaixo:
“Excelentíssimos, Senhoras e Senhores. Boa tarde a todas as pessoas! Cumprimento respeitosamente a mesa e parabenizo aos homenageados.
A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) é uma das instituições de ensino superior mais importantes e tradicionais do Brasil. Fundada em 1920, destaca-se pela excelência acadêmica, pela diversidade de áreas do conhecimento e pelo compromisso com a pesquisa, a inovação e a extensão universitária.
Com campi distribuídos na capital e em outras regiões do estado, a UFRJ forma milhares de profissionais anualmente e desenvolve pesquisas de impacto nacional e internacional, contribuindo para o avanço científico, cultural e social do país.
E neste universo do saber na maior universidade do Brasil encontra-se o Instituto Tercio Pacitti de Aplicações e Pesquisas Computacionais - NCE. Com seus 15 anos como Instituto há 58 anos o NCE vem atuando na pesquisa, ensino e extensão na Computação aplicada.
É com grande satisfação que hoje dedicamos este momento a celebrar a notável trajetória acadêmica e profissional do Professor José Antonio dos Santos Borges, uma figura cuja dedicação à Tecnologia Assistiva e Sociais tem impactado profundamente a vida de milhares de pessoas.
Sua formação acadêmica é solidamente ancorada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Com sua graduação em Matemática na modalidade Informática pela, Mestrado e Doutorado em Engenharia de Sistemas e Computação pela COPPE/UFRJ.
José Antônio dos Santos Borges, mais conhecimento como Antônio Borges, é também um Analista de Sistemas do Núcleo de Computação Eletrônica (NCE), hoje Instituto Tércio Pacitti de Aplicações e Pesquisas Computacionais da UFRJ-NCE. Sua carreira é marcada por um foco na criação de sistemas que promovem a acessibilidade e a inclusão digital.
Ele é amplamente reconhecido como o "pai" do DosVox, um dos seus projetos de maior impacto. DosVox é um sistema destinado a apoiar deficientes visuais e possui cerca de 30.000 usuários, permitindo-lhes o acesso e a interação com computadores. Sua atuação na área de Tecnologia Assistiva é vasta e inclui a coordenação de outros projetos importantes no NCE/UFRJ: MecDaisy - para a geração e reprodução de livros digitais para deficientes visuais; Motrix - Que permite o controle do computador com a voz; Braille Fácil e Musibraille -educação musical para cegos; Prancha Fácil (comunicação alternativa) entre outros.
Além da Tecnologia Assistiva, Prof. Borges também contribuiu em outras frentes da computação como: CAD para microeletrônica; Síntese de voz; Sistemas para cartografia tátil adaptada; Computação gráfica. Seu projeto de multimídia para crianças, “Conhecendo as Letrinhas com o Menino Curioso”, foi premiado como a melhor multimídia educacional no Festival Internacional de Multimídia em Paris. Além de todas outras homenagens e títulos, o Prof. Borges é musicista, o que demonstra seu olhar sensível sobre a vida.
Tivemos o privilégio de falar sobre os diplomas, os artigos, os sistemas premiados, as grandes conquistas que adornam seu currículo. Mas hoje, a emoção nos chama a olhar para além do cientista e do doutor, e a saudar o homem, o Professor Antônio Borges. Sua trajetória não é apenas uma sequência de códigos e pesquisas; é um mapa desenhado pelo coração.
A verdadeira virada, o momento que define sua grandeza, não aconteceu em um laboratório frio, mas em uma sala de aula. Um encontro marcou sua alma para sempre. Ao dar sua aula de Computação Gráfica na UFRJ, ele conheceu um aluno deficiente visual. Naquele instante, a ciência deixou de ser apenas teoria e se tornou um imperativo moral. Não foi um algoritmo que o moveu a criar o DosVox; foi um olhar, a necessidade percebida, o desejo profundo de estender a mão a um ser humano. Ele não viu uma limitação a ser contornada; viu um talento a ser libertado.
O Professor Borges nos ensinou que a tecnologia, em sua essência mais pura, é um ato de amor. O que ele e sua equipe criaram não foram meros programas. Eles criaram pontes para a dignidade. O DosVox não é um software; é a voz que muitos não tinham, o passaporte para o mundo digital, o direito à informação, o fim do isolamento.
O legado de José Antonio dos Santos Borges não se mede pelo número de patentes, mas pelo número de sorrisos que ele acendeu, pelo grito silenciado de independência que ele permitiu que fosse ouvido. Ele não apenas resolveu problemas de acessibilidade; ele restaurou a alma e a dignidade de milhares de pessoas no Brasil e fora dele.
Ele é o mestre que nos lembra que a maior invenção de um professor deve ser a humanidade injetada em sua ciência. Ele usou o cérebro da forma mais brilhante, mas foi a sensibilidade do seu coração que o tornou um especialista em inclusão. Professor Borges, nós agradecemos ao cientista. Mas hoje, nós aplaudimos e nos emocionamos com o humanista, o homem que nos ensinou que a verdadeira inovação é aquela que enxerga o outro e o traz para a luz.
Muito obrigado, por nos mostrar que é no servir que reside a nossa maior virtude.”



